sábado, 29 de novembro de 2014

O QUE A UMBANDA TEM A OFERECER ?


  
Hoje em dia, quando falamos em religião, os questionamentos são diversos. A principal questão levantada refere-se à função da mesma nesse início de milênio.

Tentaremos nesse texto, de forma panorâmica, levantar e propor algumas reflexões a esse respeito, tendo como foco do nosso estudo a Umbanda.

O que a religião e, mais especificamente, a religião de Umbanda, pode oferecer a uma sociedade pós-moderna como a nossa? Como ela pode contribuir junto ao ser humano em sua busca por paz interior, desenvolvimento pessoal e auto realização?

Quais são suas contribuições ou posições nos aspectos sociais, em relação aos grandes problemas, paradoxos e dúvidas, que surgem na humanidade contemporânea?

Existe uma ponte entre Umbanda e ciência (?) _ algo indispensável e extremamente útil, nos dias de hoje, a estruturação de uma espiritualidade sadia.

O principal ponto de atuação de uma religião está nos aspectos subjetivos do “eu”. Antigamente, a religião estava diretamente ligada à lei, aos controles morais e definição de padrões étnicos de uma sociedade _ vide os dez mandamentos e seu caráter legislativo, por exemplo. Hoje, mais que um padrão de comportamento, a religião deve procurar proporcionar “ferramentas reflexivas” ou “direções” para as questões existenciais que afligem o ser humano. Em relação a isso, acreditamos ser riquíssimo o potencial de contribuição do universo umbandista, mas, para tanto, necessitamos que muitas questões, aspectos e interfaces entre espiritualidade umbandista e outras religiões e ciência sejam desenvolvidos, contribuindo de forma efetiva para que a religião concretize um pensamento profundo e integral em relação ao ser humano, assumindo de vez uma postura atual e vanguardista dentro do pensamento religioso. Entre essas questões, podemos citar:

_ Um estudo aprofundado dos rituais umbandistas, não apenas em seus aspectos “magísticos”, mas também em seus sentidos culturais, psíquicos e sociais. Como uma gira de Umbanda, através de seus ritos, cantos e danças, envolve-se com o inconsciente das pessoas? Como podem colaborar para trabalhar aspectos “primitivos” tão reprimidos em uma sociedade pós-moderna como a nossa? Como os ritos ganham um significado coletivo, e quais são esses significados? Grandes contribuições a sociologia e a antropologia podem dar à Umbanda.

_ Uma ponte entre as ciências da mente – como a psicanálise, psicologia – e a mediunidade, utilizando-se da última também como uma forma de explorar e conhecer o inconsciente humano. Mais do que isso, os aspectos psicoterápicos de uma gira de Umbanda e suas manifestações tão míticas-arquetípicas. Ou será que nunca perceberemos como uma gira de “erê”, por exemplo, além do trabalho espiritual realizado, muitas vezes funciona como uma sessão de psicoterapia em grupo?

_ A mediunidade como prática de autoconhecimento e porta para momentâneos estados alterados de consciência que contribuem para o vislumbre e o alcance permanente de estágios de consciência superiores. Além disso, por que não a prática meditativa dentro da Umbanda (?) _ prática essa tão difundida pelas religiões orientais e que pesquisas recentes dentro da neurociência demonstram de forma inequívoca seus benefícios em relação à saúde física, emocional e mental.

_ Uma proposta bem fundamentada de integração de corpo-mente-espírito.
Contribuição muito importante tanto em relação ao bem estar do indivíduo, como também dentro da medicina, visto que a OMS (Organização Mundial da Saúde) hoje admite que as doenças tenham como causas uma série de fatores dentro de um paradigma bio-psíquico-social caminhando para uma visão ainda mais holística, uma visão bio-psíquico-sócio-espiritual.

_ O estudo comparativo entre religiões, com uma proposta de tolerância e respeito as mais diversas tradições. Por seu caráter sincrético, heterodoxo e anti-fundamentalista, a Umbanda tem um exemplo prático de paz as inúmeras questões de conflitos étnico-religiosos que existem ao redor do mundo.

_ A liberdade de pensamento e de vida que a Umbanda dá as pessoas também deveria ser mais difundido, visto que isso se adapta muito bem ao modelo de espiritualidade que surge como tendência nesse começo de século XXI. Parece-nos que a Umbanda há muito tempo deixou de lado a velha ortodoxia religiosa de “um único pastor e único rebanho”, para uma visão heterodoxa de se pensar espiritualidade, onde ela assume diversas formas de acordo com o estágio de desenvolvimento consciencial de cada pessoa, o que vem de encontro – por exemplo – com as idéias universalistas de Swami Vivekananda e seu discurso de “uma Verdade/Religião própria para cada pessoa na Terra”. E a Umbanda, assim como muitas outras religiões, pode sim desenvolver essa multiplicidade na unidade.

_ O resgate do sagrado na natureza e o respeito ao planeta como um grande organismo vivo. Na antiga tradição yorubana tínhamos um Orixá chamado Onilé, que representava a Terra planeta, a mãe Terra. Mesmo que seu culto não tenha se preservado, tanto nos candomblés atuais como na Umbanda, através de seus outros “irmãos” Orixás, o culto a natureza é preservado e, em uma época crítica em termos ecológicos, a visão sagrada do planeta, dos mares, dos rios, das matas, dos animais, etc - ganha uma importância ideológica muito grande e dota a espiritualidade umbandista de uma consciência ecológica necessária.

_ O desenvolvimento de uma mística dentro da Umbanda, onde elementos pré-pessoais como os mitos e o pensamento mágico-animista, possam ser trabalhados dentro da racionalidade, levando até mesmo ao desenvolvimento deaspectos transpessoais, transracionais e trans-éticos dentro da religião. A identificação do médium em transe com o todo através do Orixá, a trans-ética que deve reger os trabalhos magísticos de Umbanda, os insights e a lucidez verdadeira que levam a mente para picos além da razão e do alcance da linguagem, o fim da ilusão dualista para uma real compreensão monista através da iluminação, são exemplos de aspectos transpessoais que podem ser (e faltam ser) desenvolvidos dentro da religião.

_ Os aspectos culturais, afinal Orixá é cultura, as entidades de Umbanda são cultura o sincretismo umbandista é cultura. Umbanda é cultura e é triste perceber o descaso, seja de pessoas não adeptas, como de umbandistas, que simplesmente não compreendem a importância cultural da Umbanda e da herança afro-indígena na construção de uma identidade nacional. A arte em suas mais variadas expressões tem na Umbanda um rico universo de inspiração. Cabe a ela apoiar e desenvolver mais aspectos de sua arte sacra.

Essas são, ao nosso entendimento, algumas das “questões-desafios” que a Umbanda tem pela frente, principalmente por ser uma religião nova, estabelecendo-se em um mundo extremamente multifacetado como o nosso. Muito mais poderia e com certeza deve ser discutido e desenvolvido dentro dela.


Apenas por essa introdução já se pode perceber a complexidade da questão e como é impossível ter uma resposta definitiva a respeito de tudo isso. Muitos podem achar que o que aqui foi dito esteja muito distante da realidade dos terreiros. Mas acreditamos que a discussão é pertinente, principalmente devido ao centenário, onde muito mais que festas, deveríamos aproveitar esse momento para uma maior aproximação de ideais e pessoas, além de uma sólida estruturação do pensamento umbandista. Esperamos em outros textos abordar de forma mais profunda e propor algumas ideias a respeito das questões e relações aqui levantas. Esperamos também que outros umbandistas desenvolvam esses ou outros aspectos que acharem relevantes e caminhemos juntos em busca de uma espiritualidade sadia, integral e lúcida.























FERNANDO SERPE

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

ASPECTOS DA MEDIUNIDADE




Todo aquele indivíduo que traz em sua trajetória karmica o compromisso de, nesta encarnação,  trabalhar com sua mediunidade, deve procurar conscientizar-se de que tem um dever a cumprir em prol de seus irmãos encarnados e desencarnados, em benefício de sua própria evolução.

Quando se fala em trabalhar com a mediunidade, deve ser primeiramente observado dois aspectos, que ao nosso ver estão intimamente ligados, ou seja, a conscientização de tal compromisso e o livre arbítrio inerente a cada ser encarnado.

Conscientização, porque, tal faculdade não será plenamente exercida se não houver a nível mental a conscientização do indivíduo de que tem "algo mais" a exercer nesta encarnação.

Livre arbítrio, porque, ao ser encarnado é dada a faculdade de decidir seu próprio destino, sendo  ele o único responsável por suas atitudes.

No tocante ao aspecto  mediunidade/consciência, podemos observar:

Existem pessoas que são portadoras de mediunidade, porém, não possuem consciência disso.

De uma maneira ou de outra, por fortificarem em sua consciência dogmas contrários a teoria da espiritualidade, repulsam integralmente tal faculdade, passando pela atual encarnação como se não tivessem nada a cumprir, pois suas consciências estão adormecidas e somente voltadas àquilo que é material.
Isso faz com que a mediunidade volte ao seu estado primitivo, já que o indivíduo ao reencarnar a rejeitou integralmente. É como que se tivesse procurado apagar de seus registros esta condição.

Outros, porém, já com um grau mais elevado de mediunidade, também não tendo consciência, e por desconhecimento ou ignorância a rejeitam  e passam a sofrer com ela, porque não querem usufruir de seu livre arbítrio, para conquistarem os caminhos que o tornarão melhor se vier a tratar de sua mediunidade. Criam em seus inconscientes aspectos negativos no que diz respeito a espiritualidade, como que tivessem herdado os traumas dos tempos da inquisição, não podendo nem ouvir falar em tal assunto.

Estes, coitados, sofrerão sempre influências negativas do mundo astral e dirão que sofrem de males físicos, vendo tudo como doença. Outros, poderão até mesmo tornarem-se perturbados mentalmente. Tudo em nome de uma não conscientização.

Na relação mediunidade/livre-arbítrio, encontramos aqueles que, embora conscientes de serem portadores de faculdade mediúnica, travam uma grande luta interior contra ela. Acham que cumpri-la é algo que requer muito sacrifício. Tornam-se pessoas inconstantes, amarguradas e problemáticas. Em alguns momentos há praticam com total entrosamento, noutros nem tanto, e o pior estão sempre achando motivos  para deixar de praticá-la. Para justificar tal atitude comumente alegam falta de tempo ou certas decepções pessoais em relação a sua mediunidade, chegando até mesmo ao cumulo de  atribuírem culpa a outros pelo fato de não a exercerem .

Procuram usar de todas os argumentos para se convencer e convencer a outros o uso de seu "livre arbítrio" pelo fato de deixar de lado a prática mediúnica.

Assim, em relação a prática da faculdade mediúnica, mais que pratica-la é preciso conscientizar-se de sua importância para com nossa evolução espiritual.

Como alguém já disse, se não a cumprimos na época oportuna, quando precisarmos novamente reencarnar vamos ter que esperar por muito tempo para encontrar um espírito que se digne a compartilhar conosco num novo reencarne o compromisso anteriormente não cumprido
















Coletânea AELA

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A VERDADEIRA VIDA É A DO ESPÍRITO



A vida só tem verdadeiro valor quando a criatura sentir e compreender a vida fora da matéria, até lá vai vivendo, sim, mas na profunda ilusão do seu mundo material, direcionando a sua vida na felicidade de atingir e satisfazer os seus prazeres materiais. Mesmo que estes sejam lapsos de uma felicidade aparente, ainda acha que só assim é feliz.

Mas quando descobre o verdadeiro valor da vida e que esta se encontra na plena simplicidade alcançada, jamais esta descoberta será perdida e só assim reconhece e admite o elevado significado que a vida tem.

Mesmo que se encontre sobre uma avalanche e que a sua vida precise mudar 180º ao reconhecer esta verdade e nela se apoiando sabe tirar-lhe o maior proveito, lutando com coragem, valor e paciência, confiando em si mesmo e nas Forças Superiores, de quem pode receber intuições de encorajamento quando se religa com elevação, e sobretudo reconhecendo-se como partícula de uma inteligência universal, colocada no mundo terreno com um propósito firme de vencer e alcançar a sua evolução espiritual.

A criatura esclarecida de que é um composto de corpo e alma, entende que veio ao mundo para lutar e vencer sejam quais forem os reveses que encontrar pelo seu caminho e que estes se apresentam com um único e simples propósito de aprimorar o seu carácter.

Tornar-se uma criatura simples, verdadeira e pura, equilibrando o seu ser em vivência física com o seu ser espiritual, e assim alcançando a vitória de uma vida em trajetória evolutiva.

E com o passar do tempo, o conhecimento da verdadeira vida vai transformando o Espírito consolidando os seus atributos de forma a não temer os reveses e adquirindo uma maior capacidade para os enfrentar.

A criatura vai assim adquirindo acervo espiritual. E é do bom aproveitamento da encarnação que o Espírito faz a sua ascensão na escala evolutiva.

Portanto reveses constituem valiosos momentos para prestar provas e superá-las com a devida dignidade, serão pois bem-vindos estes reveses pois permitirão uma correta avaliação da nossa alma.















Por: Ana Paula Oliveira

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A VIDA NÃO PARA


Tudo deve ser bem pensado para ser bem resolvido. Pensamentos firmes e bem delineados dão resultados seguros. Quando há vontade forte e pensamentos voltados para o cumprimento do dever, é possível resolver grandes questões , no momento oportuno, pois acontece uma sintonia com o Astral Superior (Forças Superiores).

É necessário ter calma. É preciso raciocinar muito para saber resolver com acerto as grandes questões que possam alterar a boa marcha da vida no planeta.

Todos os dias aparecem novas ideias com novas possibilidades de soluções, uma vez que a vida não para. Assim é a vida. É necessário compreender a razão de ser de tudo que acontece no mundo. É preciso valorizar os momentos de reunião e decisão com muita razão, para uma maior clarividência nos pensamentos, facilitando assim o cumprimento dos deveres.

Refletindo sobre os acontecimentos com base na lei de causa e efeito, pode-se concluir que o sofrimento de hoje é consequência do mal praticado ontem.

O mundo Terra está cada vez mais conturbado devido às condutas erradas de seus habitantes. Se outra fosse a maneira de pensar e agir, outro seria o viver terreno.

É preciso que as criaturas humanas se encontrem à Luz do Amor Cristão, para haver um bem-querer maior, para que a amizade cresça entre as pessoas e situações desagradáveis nunca se avolumem.

Essa é a única saída. Enquanto isso não acontecer de fato, os seres humanos estarão sempre em desarmonia, estarão sempre de prevenção contra o próximo. E,claro, colecionando grandes sofrimentos coletivos, muitos em nível planetário.










Por: Luiz Hamilton Menossi

sábado, 22 de novembro de 2014

O QUE É MACUMBA



O texto abaixo, explica de maneira simples do que se trata a macumba como dito popular, pois na realidade, como o próprio texto diz, macumba é um instrumento musical (tipo tambor) feito da árvore chamada macumba, vale a leitura:

“Macumba, macumbeiro, encosto, olho gordo, mal olhado, mandinga, etc, etc, etc. São tantas as palavras para designar as más energias... E as boas energias? Não se fala boacumba, bomcumbeiro, olho magro, bom olhado, boandinga... Essas eu realmente não ouvi.

Afinal, é muito mais fácil acreditar que não temos erros e que a culpa é do encosto.

- não tenho emprego, meu "chefe me persegue", minha mulher é uma bruxa, sou bêbado, os caminhos estão fechados (essa todo umbandista já ouviu). Tudo isso é culpa do tal encosto.

Poderosos esses encostos...

Nós esquecemos do nosso livre arbítrio. Esquecemos que somos imperfeitos. Esquecemos que erramos, esquecemos que estamos vivos para aprender, crescer em direção ao Criador. Esquecemos que podemos errar. "errar é humano". Colocar a culpa "nos outros" é feio...

Certamente existem os trabalhos feitos. As famosas “macumbas” - diga-se de passagem, macumba é um instrumento musical - são simplesmente "bombas" energéticas endereçadas e programadas para estourar para quem desejamos o mal.

Despachos, galinhas pretas, nome na boca do sapo, fitas amarradas nas vísceras de alguns animais. A imaginação desses "pais-de-encosto" é fértil! Haja criatividade, tempo e pessoas incautas que se prestam a pagar por esse tipo de "trabalho forte".

Esquecem-se que a maior Magia vem do coração, da alma, do pensamento. Magia é fazer orações para alguém parar de beber. É clamar por melhores condições no emprego (e claro, trabalhar também), é tentar convencer de que algo è melhor ou pior.

A Magia está no pensamento, na nossa vontade.

A pior "macumba" é aquele pensamento fixo em prejudicar alguém. Muito mais forte que qualquer trabalho encomendado.

Outro dia, Pai Joaquim do Cruzeiro das Almas, com seu jeito inerente a todo Preto-Velho, apenas disse:

"Filho, cada pensamento ruim contra alguém, é como se fosse um pedaço de carvão que você pega e tenta atirar num pano limpo, que está colocado longe de você. Ao terminar de atirar várias pedras de carvão, você vai estar mais sujo que o pano."

Em outra ocasião perguntaram a ele se macumba pegava. A resposta: "se o pano estiver muito próximo de quem está atirando o carvão, então mais sujo ele vai ficar...”

Acho que essas palavras simples e sábias podem esclarecer o que devemos fazer para ficarmos imunes às energias de baixa freqüência.

Devemos deixar o "pano" longe do carvão. Elevar nossos pensamentos, permanecer ligados ao Grande Mestre.

Reconhecer nossas limitações e tentar eliminá-las. Viver na alegria. Cantar em dias ensolarados. Correr na chuva. Rir, abraçar, beijar, sentir saudades, comemorar, sentar na praia, conversar com os amigos. Fazendo isso, estamos fazendo um trabalho forte. Um Trabalho Forte (com letras maiúsculas). Fechando nosso corpo das "macumbas". Quebrando trabalho de feitiçaria "braba"! Simples não?
















Fonte: Planeta Umbanda

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O BEM QUE SE FAZ




Quando a ingratidão te bater à porta, não digas: nunca mais ajudarei a ninguém!

Quando a impiedade daqueles a quem beneficiaste chegar ao teu lar, não exclames: para mim, chega!

Não sofras e nem te arrependas de ter ajudado.

Nem reclames: e eu que lhes dei tudo!

Não retribuas mal por mal, pois que assim, vitalizarás o próprio mal.

O bem que se faz a alguém é sempre luz que se acende na intimidade.

Naturalmente, gostarias de receber gratidão, amizade, compreensão. Todos apreciamos experimentar os frutos da gratidão.

Pensa que a árvore jamais pergunta a quem lhe colhe os frutos para onde os carregará ou o que pretende fazer deles.

Ela se felicita por poder dar. Por se multiplicar através da semente que, atirada ao solo, o abençoa com novas dádivas de alegria.

Segue-lhe o exemplo.

Teus frutos bons, que produzam bons frutos além...

Tuas nobres tarefas, que se desdobrem em tarefas superiores mais tarde.

Fica com a alegria de fazer, de doar. Nunca com a idéia de colher reconhecimento ou gratidão.

Porque esperar gratidão pode ser também uma espécie de pagamento.

Sê tu sempre grato, mas não esperes pelo reconhecimento de ninguém.

O bem que faças, viajando sem parar em muitos corações, espalhará luz no longo curso da tua vida.

Amanhã ou depois, nos caminhos sem fim do futuro, mesmo que não o saibas ou que o tenhas esquecido, esse bem te alcançará, mais formoso, mais fecundo.

Assim, prossegue ajudando sempre. Observa como age a natureza:

O rio não cogita de examinar as bênçãos que conduz em suas águas, nem interpela o solo por onde segue.

Deixa-se jorrar, beneficiando a terra, a agricultura, as gentes.

O perfume, bailando no ar, nada pede para se espalhar até onde possa.

O grão não espera nada, além de ser triturado, para se converter em alimento.

O sol não escolhe lugar para visitar com luz, calor e vida.

A chuva não tem preferência por onde espalhar vitalidade.

Todos cooperam em nome da divindade, sem exigências e sem reclamações.

São úteis e passam. Nada esperam, nada impõem.

Age desta forma, tu também, e transforma-te num cálice de bênçãos, servindo sempre.

Se a tristeza te visitar a alma, ante a ingratidão de tantos a quem doaste o que possuías de melhor, recorda o Mestre de todos nós.

Ele disse que estava no meio de nós, como aquele que serve.

E, tendo derramado o seu amor, plenificando de vida a todos os que dele se aproximaram, recebeu na hora extrema a ingratidão do abandono.

Mesmo assim, até hoje Ele prossegue, convidando: "Vinde a mim. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim".

















(FONTE: Livro "Dimensões da Verdade", Capítulo "Benefício e gratidão"; do Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco).


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

AS QUATRO ESTAÇÕES DA VIDA



Você já notou a perfeição que existe na natureza? Uma prova incontestável da harmonia que rege a Criação. Como num poema cósmico, Deus rima a vida humana com o ritmo dos Mundos.

Ao nascermos, é a primavera que eclode em seus perfumes e cores. Tudo é festa. A pele é viçosa. Cabelos e olhos brilham, o sorriso é fácil. Tudo traduz esperança e alegria.

Delicada primavera, como as crianças que encantam os nossos olhos com sua graça. Nessa época, tudo parece sorrir. Nenhuma preocupação perturba a alma.

A juventude corresponde ao auge do verão. Estação de calor e beleza, abençoada pelas chuvas ocasionais. O sol aquece as almas, renovam-se as promessas.

Os jovens acreditam que podem todas as coisas, que farão revoluções no Mundo, que corrigirão todos os erros.

Trazem a alma aquecida pelo entusiasmo. São impetuosos, vibrantes. Seus impulsos fortes também podem ser passageiros... Como as tempestades de verão.

Mas a vida corre célere. E um dia – que surpresa – a força do verão já se foi.

Uma olhada ao espelho nos mostra rugas, os cabelos que começam a embranquecer, mas também aponta a mente trabalhada pela maturidade, a conquista de uma visão mais completa sobre a existência. É a chegada do outono.

Nessa estação, a palavra é plenitude. Outono remete a uma época de reflexão e de profunda beleza. Suas paisagens inspiradoras - de folhas douradas e céus de cores incríveis – traduzem bem esse momento de nossa vida.

No outono da existência já não há a ingenuidade infantil ou o ímpeto incontido da juventude, mas há sabedoria acumulada, experiência e muita disposição para viver cada momento, aproveitando cada segundo.

Enfim, um dia chega o inverno. A mais inquietante das estações. Muitos temem o inverno, como temem a velhice. É que esquecem a beleza misteriosa das paisagens cobertas de neve.

Época de recolhimento? Em parte. O inverno é também a época do compartilhamento de experiências.

Quem disse que a velhice é triste? Ela pode ser calorosa e feliz, como uma noite de inverno diante da lareira, na companhia dos seres amados.

Velhice também pode ser chocolate quente, sorrisos gentis, leitura sossegada, generosidade com filhos e netos. Basta que não se deixe que o frio enregele a alma.

Felizes seremos nós se aproveitarmos a beleza de cada estação. Da primavera levarmos pela vida inteira a espontaneidade e a alegria.

Do verão, a leveza e a força de vontade. Do outono, a reflexão. Do inverno, a experiência que se compartilha com os seres amados.

A mensagem das estações em nossa vida vai além. Quando pensar com tristeza na velhice, afaste de imediato essa idéia.

Lembre-se que após o inverno surge novamente a primavera. E tudo recomeça.

Nós também recomeçaremos. Nossa trajetória não se resume ao fim do inverno. Há outras vidas, com novas estações. E todas iniciam pela primavera da idade.

Após a morte, ressurgiremos em outros planos da vida. E seremos plenos, seremos belos. Basta para isso amar. Amar muito.

Amar as pessoas, as flores, os bichos, os Mundos que giram serenos. Amar, enfim, a Criação Divina. Amar tanto que a vida se transforme numa eterna primavera.

















Fonte: Redação do Momento Espírita.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

E SE VOCÊ SOUBESSE QUE IRIA MORRER HOJE - O QUE FARIA ?






Essa pergunta foi feita a um homem, no século XIII. Um ser iluminado.

Nascido em berço de ouro, conheceu as delícias da abastança. Filho de rico mercador, trajava-se com os melhores tecidos da época. Sua adolescência e juventude foram impregnadas das futilidades daqueles dias, em meio a expressivo número de amigos.

Assim transcorria sua vida, quando um chamado se deu a esse jovem.

Ele então se despiu dos trajes da vaidade e se transformou no Irmão Francisco, o Irmão dos Pobres.

Sua alma se encheu de poesia e ele passou a compor versos para as coisas pequeninas, mas muito importantes, da natureza. Chamou irmãos à água, ao vento, ao sol, aos animais. Sua alma exalava o odor da alegria que lhe repletava a intimidade.

Certo dia, enquanto arrancava do jardim as ervas daninhas, Frei Leão, que o observava, lhe perguntou:

Irmão Francisco, se você soubesse que morreria hoje, o que faria?

Francisco descansou o ancinho, por um instante. Seus olhos, apagados para as coisas do mundo passageiro, pareceram contemplar paisagens interiores de beleza.

Suspirou, pareceu mergulhar o olhar para o mais profundo de si e respondeu, sereno:

Eu? Eu continuaria a capinar o meu jardim.

E retomou a tarefa, no mesmo ritmo e tranquilidade.

Quantos de nós teríamos condições de agir dessa forma? A morte nos apavora a quase todos. Tanto a tememos que existem os que sequer pronunciam a palavra, porque pensam atraí-la. Outros, nem comparecem ao enterro de colegas, amigos, porque dizem que aquilo os deprime, quando não os atemoriza.

Algo como se ela nos visse e se recordasse de nos vir apanhar.

E andamos pela vida como se nunca fôssemos morrer. Mas, de todas as certezas que o mundo das formas transitórias nos oferece, nenhuma maior que esta: tudo que nasce morre um dia.

Assim, embora a queiramos distante, essa megera ameaçadora que chega sempre em momentos impróprios, ela vem e arrebata os nossos amores, os desafetos, nós mesmos.

Por isso, importante que vivamos cada dia com toda a intensidade, como se nos fosse o derradeiro.

Não no sentido de angústia, temor, mas de sabedoria. Viver cada amanhecer, cada entardecer e cada hora, usufruindo o máximo de aprendizado, de alegria, de produção.

Usar cada dia para o trabalho honrado, que nos confira dignidade. Estar com a família, com os amigos.

Sorrir, abraçar, amar.

Realizar o melhor em tudo que façamos, em tudo que nos seja conferido a elaborar. Deixar um rastro de luz por onde passemos.

Façamos isso e, então, se a morte nos surpreender no dobrar dos minutos, seguiremos em paz, com a consciência de espíritos que vivemos na Terra doando o melhor e, agora, adentraremos a Espiritualidade, para o reencontro com os entes queridos que nos antecederam.


Pensemos nisso.


















domingo, 16 de novembro de 2014

RELIGIÃO COMO FATO SOCIAL






O homem contemporâneo, vivendo numa fase de crise universal, determinada por mudanças rápidas em todos os campos de sua atividade, defronta-se com um grave problema subjetivo: ser ou não ser religioso. Os estudos sobre a origem e o desenvolvimento da Religião, sua natureza, sua significação para o comportamento humano, seus efeitos na dinâmica social e nos processos de renovação das estruturas econômicas e administrativas da sociedade, bem como no desenvolvimento cultural e mais especificamente das pesquisas científicas, oferecem-lhe opções contraditórias que não levam a nenhuma solução, agravando a crise com o levantamento de novos conflitos aparentemente insanáveis.

Culturalmente marginalizada, a partir do Renascimento, a Religião se transformou numa questão opinativa. Para os materialistas e ateus é apenas um resíduo do passado supersticioso; para os pragmatistas, uma questão de conveniência; para os espiritualistas, um problema vital, do qual depende a própria sobrevivência da Humanidade. As posições opiniáticas, em todas essas áreas, geram a desconfiança e a indiferença no seio das massas populares, desprovidas de elementos para uma avaliação do problema, e muito menos para a sua equação.

O que hoje se convencionou chamar de Ciência da Religião, abrangendo vários aspectos da questão religiosa em diversas perspectivas cientificas, fora do campo religioso, apresenta-se como análise fria do processo religioso, com base nos dados objetivos da História. Mesmo a Psicologia das Religiões vê-se obrigada a pairar no plano das estruturas das escolas psicológicas, sem mergulhar na essência do fenômeno religioso, sob pena de perder a sua qualificação científica.

Acontece com a Religião o mesmo que verificamos no tocante ao problema da vida, cuja solução se busca no pressuposto de que o impulso vital se origina no campo dos aminoácidos. A matéria, considerada como a fonte de toda energia - apesar da comprovação cientifica atual de que é o produto da acumulação energética --- mantém-se na posição de geradora da vida. Assim também se busca o segredo da Religião nas suas formas de manifestação, na sua estrutura e no seu funcionamento, como se ela se originasse das entranhas do homem e não das profundezas do seu psiquismo. A vida, a alma, o sentimento e o pensamento não seriam mais do que epifenômenos, efêmeras eclosões do fenômeno orgânico, destinadas a desaparecer com este.

Não pretendo promover uma revolução copérnica no assunto, mas apenas mostrar, se possível, a conveniência de uma mudança de posição. Basta encararmos a Religião coma um fato social, segundo a tese de Durkheim, sem nos limitarmos aos aspectos puramente estruturais e funcionais do fato em si, para que as perspectivas da análise se tornem mais amplas e flexíveis. Religião e Sociedade se mostram conjugadas indissoluvelmente no plano histórico. Se tomarmos como exemplo o clã judaico de Abraão, do grupo étnico dos Habiru, na Caldéia, veremos que ali se formava ao mesmo tempo uma nova sociedade e uma nova religião que iriam exercer papel fundamental no desenvolvimento da civilização. Ambas, sociedade e religião, nasciam no seio de outra sociedade e outra religião, organizadas, tradicionais, e delas se distinguiam pelas características étnicas e pela destinação histórica tipicamente carismática, determinada pela tendência monoteísta do clã, sob o impulso de crenças que se corporificavam nas manifestações de entidades mitológicas. Abraão, Isaac e Jacó assumiram a direção do clã e o levariam, através do Egito, às terras de Canaã, na Palestina, na sangrenta epopéia dos relatos bíblicos.

Temos de distinguir no caso dois elementos conjugados que provocam o nascimento da nova religião: primeiro, o elemento étnico, determinante do agrupamento social; segundo, o elemento mítico, determinante da nova orientação religiosa. Este último não se mostra como subjetivo, mas caracteriza-se pela sua objetividade. E a intervenção ativa de influências exó-genas na vida do clã, provenientes de manifestações concretas de entidades espirituais. Por mais que isso possa repugnar aos adeptos da interpretação psicológica dos fatos, que só aceitam as manifestações espirituais como de ordem subjetiva, os resultados das pesquisas modernas e contemporâneas no campo das Ciências Psíquicas, atualmente confirmadas pelas pesquisas parapsicológicas, com a anterior comprovação das pesquisas metapsíquicas, mostram que a intervenção espiritual poderia ter sido objetiva, segundo a descrição dos relatos bíblicos.

Admitindo-se a realidade dessa manifestação concreta, que corresponde a milhares de outras verificadas em todas as latitudes do planeta, podemos chegar à conclusão de que as religiões se originam de uma conjugação de fatores humanos e espirituais, nenhum deles podendo ser excluído da análise honesta do fato social, sem que se pratique uma violência contra a realidade mundialmente comprovada. Os fenômenos paranormais aparecem então como o elemento básico do fato social a que chamamos religião. E não é possível, nas condições atuais do desenvolvimento das Ciências, mesmo no plano da Física, opor a essa realidade o simples desmentido dos argumentos, sem provas científicas evidentes de sua impossibilidade.

Assim, a colocação do problema religioso de maneira opiniática, em termos materialistas, pragmáticos ou espiritualistas, nesta altura de nossa evolução cultural, corresponderia a uma verdadeira heresia científica. Não obstante, o desenvolvimento das religiões e sua institucionalização, em todo o mundo, oferecem motivos de suspeita aos espíritos objetivos, que pretendem analisá-las no seu estado atual. Nesse processo histórico inserem-se naturalmente os elementos do psiquismo comum, em suas manifestações pura-mente subjetivas e não raro de ordem patológica. Inserem-se também os elementos psicológicos, hoje bem conhecidos, que determinam a criação do sectarismo religioso e das ordenações institucionais, cujos objetivos são característicos dos interesses sociais. Posições psicológicas individuais ou de grupos, tradições, interesses políticos, preconceitos, superstições, interesses imediatistas, às vezes até mesmo pessoais e outros são elementos que se mesclam no processo de institucionalização das religiões, não raro a partir do próprio momento e da própria fonte em que elas nascem. Mais do que difícil, é quase impossível distingui-los e precisar a importância que tiveram no processo histórico.

As religiões se dividem em duas categorias fundamentais: as reveladas ou naturais e as inventadas ou artificiais. Independentemente das classificações existentes, podemos dispô-las nessas duas linhas de analise. A religião natural, neste caso, é a que surge espontaneamente, entre os povos primitivos ou civilizados, a partir do ensino de um mestre. As artificiais são criadas no meio civilizado, em momentos de crise religiosa, como no caso do Culto da Razão, de Chaumette, ou da Religião da Humanidade, de Augusto Comte. As reformas religiosas não criam tipos novos, apenas modificam os já existentes em virtude de divergências ou da verificação de distorções havidas no processo de institucionalização. A religião individual, da tese de Bergson, que corresponde à Moralidade da tese anterior de Pestalozzi, não se enquadra nesse panorama por constituir uma superação do plano social e uma libertação total de todo condicionamento institucional. Não obstante, pela sua conotação inevitável com a realidade social em que se insere, embora individualmente, não escapa ã classificação geral de fato social.

Temos assim uma possibilidade maior de esclarecer o que se pode entender por religião como fato social. Não é apenas um fato isolado que ocorre na dinâmica de uma sociedade, mas um fato que brota da realidade social como expressão de sua própria alma, de suas tendências e suas aspirações, na forma de uma síntese conceptual que engloba, nas suas representações simbólicas e na sua estrutura racional, os elementos básicos do todo social concreto e os vetores ou direções do psiquismo coletivo. Sem essa compreensão intuitiva, e portanto global, do fato social da religião, todas as formas de encarar e interpretar o fenômeno religioso nos levarão fatalmente a condicionamentos restritivos e esquemáticos, que só poderão aumentar a confusão e agravar as erros cometidos na colocação do problema.

Essa complexidade do fenômeno religioso parece ,explicar de maneira mais profunda a marginalização cultural a que a Religião foi relegada a partir do início do mundo moderno. Confinada nas instituições igrejeiras, abastardada pelo profissionalismo clerical, transformada em ópio do povo e sustentáculo de situações sociais profundamente injustas, catalogada entre os produtos espúrios das fases de ignorância supersticiosa, revertida à condição de promotora de guerras, massacres e asfixia das liberdades humanas, utilizada como arma poderosa nas mais desumanas guerras ideológicas, responsabilizada pelas mais cruéis deformações da criatura humana, a Religião se constituiu em barreira de todo o progresso cultural e foi excluída do mundo da Cultura como indesejável.
Não obstante, graças ao poder subjacente nas estruturas formais das religiões e à conotação vital dos seus princípios com as exigências naturais da consciência humana, sua posição no processo cultural moderno e contemporâneo caracterizou-se pela ambivalência. Sua exclusão não pode ser total, nem mesmo nas áreas políticas dominadas pelo materialismo ideológico. Encarada ao mesmo tempo com ódio e respeito, numa estranha mistura de desconfiança e temor, encontrou n a interpretação pragmática, utilitária, de mal necessário, o salvo-conduto que lhe permite a circulação tolerada nos meios culturais da atualidade.

Por outro lado, sua presença nos meios culturais é sempre conflitiva. Não há possibilidade de harmonização perfeita entre cultura religosa e cultura secular, a não ser no plano da religião individual, que rompe o envoltório formal das religiões sociais e é encarada por estas como uma aberração. O resultado mais negativo dessa situação conflitiva foi o aparecimento de outro mal necessário, a implantação mundial da Educação Leiga, que frustrou as possibilidades de reelaboração da experiência religiosa pelas novas gerações e determinou a sedimentação interesseira da sua posição de ambivalência no mundo contemporâneo. Como não podia deixar de acontecer, essa posição ambígua, indefinida e contraditória em si mesma, levou a proporções catastróficas a crise das religiões em nossos dias.

Felizmente a natureza vital da Religião, as suas profundas raízes ônticas (e não apenas ontológicas) e a sua inelutável condição de síntese de toda a realidade social, determinaram o aparecimento de uma síntese cultural em que a Religião, reunificada à revelia da fragmentação institucional das religiões, ressurge entranhada na substância do progresso cultural. Não podemos tratar da crise das religiões em nosso tempo sem enquadrá-la nas dimensões desse fato cultural, onde todos os seus problemas se esclarecem de maneira coerente e profunda. As pessoas integradas no formalismo cultural do século, apegadas a princípios exclusivistas e alheias à recomendação cartesiana contra o preconceito e a precipitação, certamente rejeitarão como negativa e parcial a posição que assumo. Mas a coincidência com a verdade histórica (simplesmente incontestável) com a conflitiva realidade cultural dos nossos dias com as perspectivas científicas abertas por essa síntese cultural e já em parte realizadas, asseguram a validade desta interpretação, acima de qualquer facciosismo. Não seria possível desprezar a evidência dos fatos e das conotações de princípios filosóficos e científicos com o panorama real, objetivo, das mudanças que se verificam dia-a-dia: aos nossos olhos, apenas para satisfazer a determinadas normas convencionais. Acima das convenções transitórias e das conveniências de acomodação ao impreciso espírito da época, deve prevalecer o amor à verdade.

Acelera-se o processo das mudanças. Ampliam-se os conflitos entre o velho e o novo em todas as áreas das atividades humanas. Descontrolam-se os sistemas de segurança em todas as instituições. As religiões até ontem mais sólidas e poderosas agonizam em seus leitos de riquezas milenarmente acumuladas. As teologias até ontem inabaláveis, como estrelas fixas do pensamento religioso, estremecem coma a unidade pitagórica para desencadear a década de novos universos. Rasgam-se as fronteiras do tempo e do espaço. O homem se equilibra, nervoso e inquieto, na fímbria tenuíssima da crosta planetária, entre dois infinitos que se escancaram nos abismos do microcosmo e do macrocosmo.
Não é essa hora de concessões à ignorância (ilustrada ou não) nem o momento de cachimbadas líricas ao cair do crepúsculo. Estamos na hora da verdade, das proposições claras e precisas, da posição destemida de alerta e vigilância. Precisamos ver, sentir, perceber por todos os nossos sentidos e além dos sentidos, através da intuição e da percepção extra-sensorial, que as peças envelhecidas do xadrez cultural estão sendo mudadas no tabuleiro do mundo. Não há mais lugar para as contemporizações tranquilas do passado, que acobertavam piedosamente os germes dos conflitos atuais. Agora os conflitos explodem e temos de enfrentá-los face a face.

Encarando a crise das religiões coma um processo sócio cultural integrado na realidade imediata, não podemos escamotear a verdade das soluções que já foram propostas para ela com grande antecedência histórica. Trata-se, par sinal, de um processo cíclico bastante conhecido dos estudiosos da História. Só há uma novidade na crise atual: a violenta ampliação das dimensões da crise, que se abre para visões dantescas do passado e do futuro. No passado, deparamos de novo com as regiões infernais percorridas pelo gênio de Dante; no futuro, com as revoadas angélicas da criação artística de Gustave Doré. Não há o que temer. O passado agoniza e o futuro nos arrebata, pelas mãos de Beatriz, às regiões celestiais. Estamos pisando no limiar da Era Cósmica e as constelações já brilham aos nossos olhos.

















Do livro Agonia das Religiões

J. Herculano Pires