quinta-feira, 3 de outubro de 2013

INTUIÇÃO , ESCUTE SUA VOZ.


“Uma das maneiras de usar a intuição é aprender a fazer silêncio para ouvir a sua voz”

O neurocirurgião Raul Marino Jr., 68 anos, conhece o cérebro humano como poucos. Em 35 anos de carreira, estudou-o, analisou as mudanças de comportamento relacionadas à sua química e se preocupou em explicar os caminhos das emoções entre os 100 bilhões de neurônios do órgão. Trabalhou em alguns dos melhores centros de pesquisa, como o Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Estudou para entender o que acontece no cérebro durante as orações, transes e outras práticas místicas. Na semana passada, Marino, professor de neurocirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, lançou o livro A religião do cérebro (Ed. Gente), no qual resume as descobertas mais recentes sobre a origem e os efeitos da experiência religiosa ou mística. “Fiz um depoimento sobre o que existe e acredito, como, por exemplo, o fato de que somos dotados de áreas cerebrais para que possamos nos comunicar com Deus”, disse Marino – além de médico, cristão –, na entrevista concedida a ISTOÉ.

ISTOÉ – Qual a concepção mais atual sobre o funcionamento do cérebro?
Raul Marino Jr. – Um dos princípios da neurociência do comportamento é que nossas experiências são geradas pela atividade cerebral. Assim, os sentimentos de amor, a consciência e até a presença de uma divindade estão associados a eventos que acontecem no cérebro.

ISTOÉ – E o que é a neuroteologia?
Marino Jr. – Estudamos o processamento das emoções relacionadas à religião, à espiritualidade, no cérebro.

ISTOÉ – Como são feitos os estudos?
Marino Jr. – Foram feitas experiências com monges e freiras em clausura mostrando como e quando áreas cerebrais se alteravam durante a meditação e a oração. Viu-se que, em estado meditativo, eles apresentam alterações reais e detectáveis. Há mudanças na química do sangue e das ondas cerebrais.

ISTOÉ – Qual foi, até agora, o maior achado da neuroteologia?
Marino Jr. – Foi ter encontrado, no cérebro, as áreas ativadas pela oração e pela meditação, quando entramos em contato com o divino.

ISTOÉ – E quais são essas regiões?
Marino Jr. – Uma das mais importantes é o lobo límbico e suas conexões.
Lá estão estruturas que nos ligam ao Criador e ao significado do mundo.

ISTOÉ – Seu livro descreve experiências de estimulação de áreas do cérebro situadas no lobo temporal direito, seguidas de reações que podem ser interpretadas como experiências místicas. Pode explicar isso?
Marino Jr. – Durante os últimos 15 anos, um importante pesquisador, Michael Persinger, aplicou campos magnéticos sobre o hemisfério direito do cérebro de jornalistas, músicos, escritores e estudantes. Todos referiram-se à sensação de uma presença ou ao deslocamento para fora dos seus corpos. Uma das conclusões foi a de que crenças sobre a existência de deuses são propriedades normais do cérebro humano, tendo se desenvolvido em nossa espécie como funções para facilitar nossa adaptabilidade. O autor mostrou a evidência de que certas experiências de cunho religioso podem ser simuladas em laboratório. Isso não quer dizer, porém, que elas sejam fruto do cérebro. A experiência mística é algo que vem de dentro. E só o ser humano pode ter essa experiência divina. Só ele possui as estruturas cerebrais capazes de processá-la.

ISTOÉ – De que maneira os conhecimentos da neuroteologia podem melhorar o atendimento ao paciente?
Marino Jr. – Pode-se usá-los em favor do doente. É como ajudá-lo a usar uma fonte de benefícios que ele tem em si próprio, mas que muitos desconhecem.

ISTOÉ – Quais são esses benefícios?
Marino Jr. – A vivência da espiritualidade ajuda no bom funcionamento do organismo. As pessoas que têm fé se recuperam melhor de tratamentos de doenças crônicas, por exemplo.

ISTOÉ – No livro, o sr. afirma que a intuição é uma ferramenta que desprezamos cada vez mais. Como usá-la melhor?
Marino Jr. – Uma das maneiras é aprender a fazer silêncio para ouvir a sua voz. Ela não é alta e clara, dizendo faça isso ou aquilo. É um sopro, um sentimento, uma certeza. Isso depende de prática, de meditação, oração ou como você quiser chamar esses momentos em que a pessoa se desliga da corrente dos acontecimentos e entra em contato consigo e com Deus.













Fonte: IstoÉ – 17/08/2005

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A VIDA NÃO PERMITE RASCUNHO


Somos sabedores de que temos mesmo de disponível só o tempo presente. O passado já foi e o futuro ainda não chegou. É enorme, entretanto, o número de pessoas que veem no dia-a-dia apenas a repetição do dia anterior, sem nenhuma perspectiva de mudança para o dia seguinte. Nesses casos, comportam-se como "zumbis", seres que caminham de um lado para outro, sem destino algum, sem vontades, esperanças ou alguma expectativa que os impulsione para frente. Apenas repetem, repetem, repetem. Pessoas que infelizmente passam pela vida e são maltratadas por ela. Incentivadas por uma minoria "poderosa", a quem interessa seres que apenas executam sem questionar, sem reivindicar seus direitos, acabam por formar um mundo à parte.

Outra grande parte das pessoas vive o que chamam de sonho, mas na verdade apenas fantasiam o que gostariam de viver. Não encontram energias para transformar as aspirações manifestadas nesse devaneio em um sonho a ser realizado. Dão reforço às expressões: "carnaval, futebol e cachaça". Como se a vida fosse apenas isso: trabalhar a semana toda sob pressão e aguardar o fim de semana para poder, em um churrasco ou outro evento qualquer, transpirar todas as suas insatisfações, como uma válvula de escape. Como esvaziar-se para começar a encher novamente.

Já falamos que se quisermos algo, temos que buscar em nós mesmos a energia necessária. O mundo em que vivemos, as pessoas que nos cercam, quando muito podem nos estimular, nos facilitar uma parte do caminho, mas a energia para esse caminhar só poderá ser encontrada dentro de cada um. O caminho é individual. Cada pessoa faz a sua estrada. Seguir a estrada alheia é despersonalizar a própria existência. Frustrações e insatisfações permanecerão.

Acho adequado substituir o termo "conformar-se" por "aceitar". Conformar-se significa amoldar-se; identificar-se, o que não é negativo, mas tem uma conotação muito forte de "resignação"! E resignar-se significa renunciar a; abdicar de, abrir mão. Atenção! Resignar-se significa também aceitar a situação sem lutar contra, mas caminhar na direção que é possível. Precisamos nos desprender dos conceitos limitadores e explorar os que são propulsores. Uma mesma palavra pode colocar a pessoa para baixo ou para cima.

Aceitar significa ter humildade para entender que tudo pode acontecer consigo próprio. Pessoas contraem doenças contagiosas porque não acreditam que isso possa ocorrer com elas, só com os outros. Aceitar significa admitir a situação. E só após a aceitação é que se pode fazer algo para mudar. "Se fulano aceitasse que é um alcoólatra, faria o tratamento indicado".

Identificar onde está, olhar para onde se quer ir e refletir sobre o que efetivamente está-se fazendo para chegar lá pode ser o início de sua nova jornada. Busque a energia dentro de si. Lembre-se de que entusiasmo quer dizer "a Energia Divina dentro de si", portanto, não espere que venha de fora.
Se não está satisfeito com o rumo de sua vida, de seu trabalho, de sua relação afetiva, reflita. Veja o que depende de você e, então, faça. Saia da "satisfação virtual" causada pela fantasia, pelo devaneio. Pare de fazer construções hipotéticas de como seria boa sua vida. Pare de "rabiscá-la" nas nuvens que impedem a visão de seu caminho.

Você tem um sonho! Creia que ele se realizará através de seu esforço pessoal, da sua persistência, disciplina e determinação. Experimente o sabor de suas conquistas reais, por menor que elas sejam e veja como é muito mais consistente do que a volta à realidade após uma "viagem". A fadiga pelo esforço feito é extremamente gratificante. Não podemos apagar erros cometidos, mas é possível refazer de forma mais adequada. Porém, mesmo que não apagados, devemos nos lembrar de que o passado já foi, então os erros já ficaram para trás.

Não fique fazendo ensaios. Apenas viva e faça-o com a consciência de que a vida não permite rascunho. Não dá para apagar e começar de novo, mas temos, a cada dia, uma nova página para escrever. Experimente uma conquista só a cada dia, por mais que lhe pareça insignificante.











Paulo Salvio Antolini