sábado, 17 de agosto de 2019

A VIDA DO OUTRO LADO








Como médium e espiritualista, vovó estava certa de que o inferno e suas possessões diabólicas eram criações do homem e não tinham nada a ver com Deus, e que satã era tão real quanto o bicho-papão.

O problema é que todo o processo da confissão me parecia ilógico. Se precisasse de algum intermediário entre mim e Deus, eu não devia mais me preocupar em rezar. (…) E se Deus ama a todos nós da mesma maneira, por que Ele daria mais atenção a esse padre pedindo perdão por mim do que se eu pedisse diretamente?

Talvez o mais confuso dos tópicos para mim fosse a vida após a morte. Conforme me explicaram, a cada um de nós é dada uma existência na Terra, após a qual ou somos banidos para a eternidade do inferno devido a qualquer infração – de assassinato ao uso de anticoncepcionais – ou somos aceitos no céu, onde passaremos a eternidade contemplando a Visão Beatífica, o que parece ótimo, mas não muito produtivo.



Levei sempre as minhas dúvidas a Francine e a vovó Ada. Nas inúmeras conversas que tivemos, elas me ensinaram a nunca desrespeitar o catolicismo ou qualquer outra religião, pois, no final, concordando ou não com cada um de seus detalhes, em essência todas elas ensinam a mesma lição: ame a Deus, faça bem ao próximo e retorne ao Lar.

O Outro Lado não é um paraíso distante além das nuvens. Ele existe realmente, logo aqui entre nós, a apenas noventa centímetros acima do chão, porém em outra dimensão cuja vibração é muito mais alta do que a nossa.

Nosso verdadeiro Lar é o Outro Lado, e não a Terra. É de lá que todos viemos, e nossa viagem para lá é a volta a um lugar conhecido, onde nos lembramos completamente do motivo pelo qual nos ausentamos e o que esperávamos cumprir com essa ausência.

Já fizemos a viagem de ida e volta muitas vezes e a faremos muitas outras, por isso sabemos exatamente como sair daqui e chegar lá.
Sentimos tanta saudade do Outro Lado, que cada um de nós faz viagens astrais para lá durante o sono pelo menos duas ou três vezes por semana, embora não nos lembramos delas no nível consciente.

O Outro lado não é um lugar místico “em algum ponto lá em cima”. Ele está logo aqui entre nós, a meros noventa centímetros do chão.

No Outro Lado, onde o tempo não existe, onde tudo o que tem vida sempre esteve e estará, nada envelhece, nada apodrece, nada se corrói. Cada milímetro quadrado de terra, cada gota de água, tudo é magnificamente, eternamente novo.

Será possível acreditar que Deus está esperando ansiosamente para ouvir de um daqueles comitês a sua decisão sobre o que é ou não um milagre, ou quem é santo e quem perdeu a vez?
(…) Existem cerca de seis bilhões de indivíduos na Terra. (…) deve haver nesse mundo pessoas extraordinárias, generosas e dedicadas que realizam milagres todos os dias em silêncio, excedendo todas as qualificações necessárias à santidade, sem fazer alarde, sem a atenção da mídia, pessoas sobre as quais o comitê jamais ouviu falar. Garanto que você conhece algumas. Posso garantir que no Outro Lado elas são tão reconhecidas, respeitadas e valorizadas quanto aquelas que possuem um certificado provando que foram “oficialmente” beatificadas.



Sugerir que qualquer nível, inclusive a santidade, tenha mais valor aos olhos de Deus é o mesmo que sugerir que Deus ama mais os universitários do que as crianças do jardim-de-infância.

Tudo o que estava acontecendo havia sido escrito por mim em meu planejamento antes de eu iniciar esta existência.

Podemos considerar as coincidências apenas como situações pitorescas, mas elas são algo muito mais interessante: uma memória consciente, uma antevisão de um momento do mapa que elaboramos, mais provas do Lar e do fato de que, naquele instante, nossa vida estava em perfeita harmonia com os planos que fizemos.














Sylvia Browne com Lindsay Harrison

domingo, 11 de agosto de 2019

A HERANÇA ESPIRITUAL DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL







  

As sequelas espirituais deste período de repressão e humilhação são subestimados ,

Durante muitos anos de trabalho em grupos mediúnicos nos deparamos, muitas vezes, com espíritos que em sua última encarnação foram negros escravos no Brasil. São, em quase sua totalidade, grupos relativamente grandes, unidos por experiências de extremo sofrimento moral e físico. 

Como de praxe nesses casos, algozes e vítimas permanecem aprisionados na atmosfera psíquica de suas vivências, recapitulando-as incessantemente. Ao dialogarmos com esses irmãos, em meio ao ódio e ao desespero encontramos também uma imensa prostração das forças morais, uma tristeza profunda nascida da desesperança. Essas experiências nos fizeram perceber quão subestimada é a herança espiritual da escravidão no Brasil. 

Uma rápida incursão na literatura um pouco mais especializada e para além dos livros escolares já nos dá uma noção das proporções do problema. Na literatura espírita, “Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho”, também permite entrever a gravidade dessa questão. 

É desnecessário nos alongarmos sobre a posição da Doutrina Espírita quanto ao tema da escravidão, mas apenas como exemplo, vejamos a questão 831 de “O Livro dos Espíritos”: 

Pergunta: A desigualdade natural das aptidões não coloca certas raças humanas sob a dependência das raças mais inteligentes? 

Resposta: Sim, mas para que estas as elevem, não para embrutecê-las ainda mais pela escravização. Durante longo tempo, os homens consideram certas raças humanas como animais de trabalho, munidos de braços e mãos, e se julgaram com o direito de vender os dessas raças como bestas de carga. Consideram-se de sangue mais puro os que assim procedem. Insensatos! Nada vêem senão a matéria. Mais ou menos puro não é o sangue, porém o Espírito. (361-803) 

Porém, é oportuno lembrar que o nascente movimento espírita brasileiro, através de suas instituições e representantes ilustres tais como Adolfo Bezerra de Menezes e Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, contribuiu para o movimento abolicionista. Por exemplo, A. B. de Menezes, em se referindo à escravidão, pergunta: 

“Pode haver paz e felicidade para as famílias enquanto guardarem elas em seu seio essa cratera ardente que lhes requeima sempre a flor da inocência e da virtude de seus filhos?” 

Ou ainda, no “Reformador”: 

“Substituir o regime da liberdade, dom divino, pelo da escravidão, abuso da força sobre a fraqueza, menos não é do que contrariar o código de leis absolutas; a nós compete pôr, fielmente, em execução este código” (Reformador, 01 de janeiro de 1887). 

Mas, se nós espíritas contribuímos para a extinção da escravidão no plano encarnado, temos contribuído igualmente para a devida cura de suas sequelas espirituais? Nossas reuniões mediúnicas tem acolhido fraternalmente esse particular grupo de Espíritos? Temos coração e entendimento abertos às suas histórias de vida? Receio que, via de regra, o preconceito e a desconfiança ainda permeiem o atendimento a esses irmãos. Neste aspecto, como em muitos outros, ainda não nos portamos a altura da doutrina que ora professamos, permitindo que a discriminação que ainda grassa na sociedade contamine a seara espírita. 

Refletindo sobre as causas dessas dificuldades penso que ao menos uma delas seja o receio, consciente ou não, de sermos confundidos com adeptos das religiões e cultos de origem africana. Como sabemos, é grande ainda a confusão na sociedade em geral a esse respeito. Ora, tal receio não deveria ser maior que o de sermos rotulados de católicos ou protestantes, mas, no entanto, creio que os Espíritos de padres e pastores desencarnados não sejam objeto de semelhantes prevenções quando comparecem à maioria das tarefas mediúnicas. Ironicamente, essa relutância – ou até mesmo omissão dos espíritas – pode, perfeitamente, ter contribuído para o surgimento da Umbanda, em cujas genuínas lides esses irmãos encontram guarida. 

Particularmente neste momento de transição espiritual urge estarmos atentos a todo o bem que possamos realizar. E os espíritas têm muito a contribuir para a quitação dessa dívida moral coletiva, que onera tão pesadamente a psicosfera do Brasil. 







(Texto de: André Luiz Malvezzi – Professor do Departamento de Física da UNESP/Ba