sexta-feira, 9 de julho de 2021

NÃO HÁ MORTE




Depois que partiram do círculo carnal aqueles a quem amas, tens a impressão de que a vida perdeu a sua finalidade.

 

As horas ficaram vazias, enquanto uma angústia que te dilacera e uma surda desesperação que te mina as energias se fazem a constante dos teus momentos de demorada agonia. Estiveram ao teu lado como bênção de Deus, clareando o teu mundo de venturas com o lume da sua presença e não pensaste, não te permitiste acreditar na possibilidade de que eles te pudessem preceder na viagem de retorno.

 

Cessados os primeiros instantes do impacto que a realidade te impôs, recapitulas as horas de júbilo enquanto o pranto verte incessante, sem confortar-te, como se as lágrimas carregassem ácido que te requeima desde a fonte do sentimento à comporta dos olhos, não diminuindo a ardência da saudade…

 

Ante essa situação, o futuro se te desdobra sombrio, ameaçador, e interrogas como será possível prosseguir sem eles.

 

O teu coração pulsa destroçado e a tua dor moral se transforma em punhalada física, a revolver a lâmina que te macera em largo prazo.

 

Temes não suportar tão cruel sofrimento.

 

Conseguirás, porém, superá-lo.

 

Muito justas, sim, tuas saudades e sofrimentos.

 

Não, porém, a ponto de levar-te ao desequilíbrio, à morte da esperança, à revolta…

 

Os seres a quem amas e que morreram, não se consumiram na voragem do aniquilamento.

 

Eles sobreviveram.

 

A vida seria um engodo, se se destruísse ante o sopro desagregador da morte que passa.

 

A vida se manifesta, se desenvolve em infinitos matizes e incontáveis expressões. A forma se modifica e se estrutura, se agrega e se decompõe passando de uma para outra expressão vibratória sem que a energia que a vitaliza dependa das circunstâncias transitórias em que se exterioriza.

 

Não estão, portanto, mortos, no sentido de destruídos, os que transitaram ao teu lado e se transferiram de domicílio.

 

Prosseguem vivendo aqueles a quem amas.

 

Aguarda um pouco, enquanto, orando, a prece te luarize a alma e os envolvas no rumo por onde seguem.

 

Não te imponhas mentalmente com altas doses de mágoas, com interrogações pressionantes, arrojando na direção deles os petardos vigorosos da tua incontida aflição.

 

Esforça-te por encontrar a resignação.

 

O amor vence, quando verdadeiro, qualquer distância e é ponte entre abismos, encurtando caminhos.

 

Da mesma forma que anelas por volver a senti-los, a falar-lhes, a ouvir-lhes, eles também o desejam.

 

Necessitam, porém, evoluir, quanto tu próprio.

 

Se te prendes a eles demoradamente ou os encarceras no egoísmo, desejando continuar uma etapa que ora se encerrou, não os fruirás, porque estarão na retaguarda.

 

Libertando-os, eles prosseguirão contigo, preparar-te-ão o reencontro, aguardar-te-ão…

 

Faze-te, a teu turno, digno deles, da sua confiança, e unge-te de amor com que enriqueças outras vidas em memória deles, por afeição a eles.

 

Não penses mais em termos de adeus e, sim, em expressões de até logo mais.

 

Todos os homens na Terra são chamados a esse testemunho, o da temporária despedida. Considera, portanto, a imperiosa necessidade de pensar nessa injunção e deixa que a reflexão sobre a morte faça parte do teu programa de assuntos mentais, com que te armarás, desde já, para o retorno, ou para enfrentar em paz a partida dos teus amores…

 

Quanto àqueles que viste partir, de quem sofres saudades infinitas e impreenchíveis vazios no sentimento, entrega-os a Deus, confiando-os e confiando-te ao Pai, na certeza de que, se souberes abrir a alma à esperança e a fé, conseguirás senti-los, ouvi-los, deles haurindo a confortadora energia com que te fortalecerás até ao instante da união sem dor, sem sombra, sem separação pelos caminhos do tempo sem fim, no amanhã ditoso.




 

(Do Livro: Sementes de Vida Eterna - de Divaldo Pereira Franco

domingo, 27 de junho de 2021

A BÊNÇÃO DO ESQUECIMENTO

 



Um dos postulados básicos do espiritismo é o da pluralidade das existências ou reencarnação.

 

A evolução dos espíritos exige inúmeras existências para aperfeiçoar-se.

 

Todos são criados simples e ignorantes, mas seu destino é tornarem-se anjos.

 

A magnitude da meta evidencia a impossibilidade de ser alcançada no curto espaço de uma vida terrena.

 

Um questionamento frequentemente levantado a essa ideia refere-se ao esquecimento das existências passadas.

 

Afirma-se que esse olvido é contraproducente.

 

Se já vivemos muitas vezes na terra, por que não nos lembramos?

 

Segundo alguns, a lembrança auxiliaria a não repetir os equívocos do passado.

 

Também serviria de incentivo à adoção de um patamar nobre de conduta.

Afinal, seria possível correlacionar as dores atuais a específicos erros de outrora.

 

Consequentemente, as criaturas teriam interesse em agir com dignidade.

 

A crítica parece sedutora, mas não resiste a uma análise criteriosa.

 

Tenha-se em mente que o esquecimento constitui a regra geral.

Raras pessoas têm, naturalmente, a lembrança de seu agir em outras existências.

 

A sabedoria divina certamente possui razões para assim estabelecer.

Convém recordar que a lei do progresso rege a vida.

Toda a criação está em permanente processo de evolução e metamorfose.

 

Na conformidade dessa lei, os espíritos não retroagem em suas conquistas.

As posições sociais mudam constantemente, mas ninguém é hoje pior do que já foi um dia.

As conquistas morais e intelectuais dos espíritos jamais são perdidas.

 

Assim, cada homem hoje se encontra no auge de seu processo evolutivo.

Ninguém nunca foi no passado mais bondoso ou nobre do que é agora.

 

Ocorre que a maioria absoluta da humanidade possui atualmente inúmeras mazelas morais.

Isso evidencia que o passado dos homens, em geral, não é repleto de nobres e belas ações.

 

Nesse contexto, o esquecimento das encarnações pretéritas constitui uma bênção.

 

No âmbito de uma única existência, quantas vezes a criatura deseja esquecer seus equívocos?

 

Não é fácil conviver com a lembrança de atos levianos.

 

Inúmeros relacionamentos periclitam pela dificuldade dos seres humanos relevarem os erros recíprocos.

E na verdade os erros são inerentes ao processo de aprender.

 

Não é possível sair da mais completa ignorância e transitar para a angelitude sem cometer equívocos nesse gigantesco caminhar.

 

Para propiciar os acertos necessários, a divindade permite o esquecimento do viver pretérito.

 

O que se viveu persiste na forma de intuições e tendências, simpatias e antipatias, facilidades e dificuldades.

 

Muitas vezes, o inimigo de ontem renasce na condição de um filho.

O esquecimento permite a transformação da mágoa em amor.

Ante o rostinho rosado e o olhar ingênuo de uma criança, torna-se possível amar a quem ontem odiávamos.

 

Quem outrora nos incomodava hoje nos auxilia na figura de um amigo ou irmão.

Sob a bênção do esquecimento, refundem-se as emoções e elos fraternos se estabelecem.

 

Assim, não é relevante lembrar o passado.

O importante é viver bem o presente.