Num período tão complexo
como a adolescência é comum que o jovem comece a se afastar cada vez mais dos
parentes e que, em contrapartida, se ligue mais e mais a um grupo de amigos.
Isso acontece porque em
casa normalmente se critica e se é criticado. Como foi dito antes, se confunde
o desejo de ser independente com o “ser do contra”. Como os pais não se habituaram
a ser contrariados o ambiente vai se tornando tenso e conflitante.
É pena que essa transição
seja tão traumática tanto para os adolescentes quanto para os pais. Todo aquele
entendimento, aquela convivência terna como que se evapora. O jovem, sentindo-se
incompreendido, passa a querer ficar cada vez mais tempo fora de casa, sem
vontade de dar a menor satisfação a seus pais como se não precisasse mais deles
ou pior, como se eles fossem um obstáculo a ser vencido a qualquer preço.
Quando há um bom nível de
diálogo entre pais e filhos a situação pode ser contornada mais facilmente pois
os dois lados envolvidos - pais e filhos - percebem que algo novo está acontecendo
e que terão que rever as bases de seu relacionamento. Os pais aceitando que
seus filhos adolescentes já não são mais crianças e que querem e precisam
aprender a voar com as próprias asas. Por sua vez, os filhos devem entender que
também para seus pais a situação é nova, e que um novo tipo de parto está
acontecendo, desta vez de natureza emocional.
O adolescente deve
procurar compreender seus pais nesses momentos, tanto quanto quer ser
compreendido por eles. Deve entender que para eles, ele era uma criança até há
poucas semanas. Deve procurar compreender também que agir por conta própria,
sem levar em consideração a opinião dos pais, é ser egoísta e intolerante com
aqueles que, bem ou mal, lhe deram o possível até aquela data. Seguir seus
próprios caminhos é um direito inquestionável, mas esse processo de ruptura
pode ser amenizado se houver boa vontade de parte a parte.
O resultado desse
desarranjo todo é a busca da companhia de seu grupo, onde é aceito com suas
virtudes e defeitos, com suas peculiaridades, onde os interesses são os mesmos.
No grupo, o jovem compensa em boa parte sua insegurança pessoal diante de tudo
que lhe acontece; sente-se mais seguro em suas ideias e encontra espaço até
para eventuais esquisitices próprias da idade. É curioso notar que o estado de
confusão interior manifesta-se no jeito de se vestir, de falar e de
comportar-se em público. Se for um rapaz, pode ser que numa semana deixe a barba
crescer, vista-se descuidadamente, ande de sandálias etc.
Na outra, é visto de
bigode, vestido com mais cuidado e comportando-se até com um certo formalismo.
Na semana seguinte, estará de óculos escuros, cabelos compridos e de bermuda. E
vai por aí.
Se for uma moça, a coisa
não ocorre de maneira muito diferente. Num dia se apresenta toda enfeitada e
pintada. No outro, vestida simplesmente, sem pintura e com os cabelos de um
modo diferente. Em outro dia de um outro modo e assim por diante. O que tudo isso
significa? Com certeza o jovem não está em busca da simples contestação; está,
na verdade, em busca de si mesmo. Quer e precisa descobrir qual é sua identidade
e isso se reflete no seu aspecto exterior. Nem sempre é simples extravagância,
mas o mais puro reflexo do estado de confusão íntima em que vive o adolescente
e que passará em pouco tempo, principalmente se for acessível a alguma ajuda de
pessoas mais experientes ou dos próprios pais.
O problema da busca de
segurança é complexo porque se o jovem se sente mais independente e seguro de
si ao romper com os laços familiares, nem sempre percebe que está simplesmente trocando
um vínculo de dependência por outro. Na verdade, troca a dependência da família
pela dependência do grupo, o que algumas vezes pode representar um mau negócio.
Se o adolescente acredita que a família já não tem nada de bom a lhe oferecer e
une-se a um grupo de jovens ainda inexperientes como ele, seria o mesmo que
trocar nada por coisa nenhuma.
Quando o adolescente além
de enfrentar as mutações próprias da idade conscientiza-se de outros fatores e
sua importância para a vida, tais como os problemas decorrentes da riqueza de poucos
e da miséria da maioria, em que talvez ele se encontre; a saúde de uns e as
doenças e deficiências físicas de outros, em que ele próprio talvez se inclua.
Nesses casos, mais importante se torna a correta compreensão da vida e aqui
voltamos a ressaltar a transitoriedade da adolescência e as responsabilidades posteriores,
com a chegada da maturidade. A carência material e afetiva tem levado muitos
jovens à delinquência e à marginalidade. Problemas congênitos, como
deficiências físicas poderão transtornar seu mundo íntimo tornando-o uma
criatura revoltada e amargurada. O certo é que cada um se encontrará diante dos
fatores existenciais necessários à sua evolução e reeducação espiritual, quando
é o caso.
Diante das cruas
realidades da vida, em que os momentos com a “turma” ou com o namorado ou
namorada são simples tréguas, nada melhor que o suporte da religião bem
compreendida e, principalmente, bem vivida. Não nos referimos aqui a nenhuma religião
em especial, mas à religiosidade inerente a toda criatura humana e que deve ser
bem canalizada em benefício próprio e da coletividade em que se vive, a começar
pelo ambiente familiar. Essa questão será tratada com mais detalhes em capítulo
próprio que veremos depois.
Dentre as necessidades
básicas do ser humano encontra-se a necessidade de segurança e proteção. Essas
necessidades são, inicialmente, supridas pela família, principalmente em se tratando
de necessidades materiais, que a criança não pode prover por si mesma. Aliás, a
espécie humana é aquela em que as capacidades de relativa autossuficiência mais
demoram por desenvolver-se.
Naturalmente, devido à
importância do período da infância para o Espírito reencarnado. A insegurança enquanto
ser é muito aumentada durante a adolescência pelos fatores já mencionados e
pela retomada dos impulsos e tendências trazidas de encarnações passadas. Nesse
período o Espírito reassume sua verdadeira natureza, deixando à mostra todas as
suas boas e más inclinações.
Quando as influências
exercidas pelos pais terrenos foram suficientes para suplantar aquelas trazidas
pelo Espírito, elas prevalecerão diante das novas oportunidades de decisão. Se
essa influência foi fraca, apenas parcial ou ineficaz, veremos o Espírito
retomar sua antiga conduta. Nesse momento se costuma dizer que pais e filhos
não mais se reconhecem, tal a diferença de comportamento assumida pelo jovem.
Parece que de nada valeram a longa convivência no período da infância e os conceitos
sadios que se lhe tentaram incutir. Apesar disso, como nada se perde, os
ensinamentos permanecerão em estado de latência e germinarão oportunamente.
Muitas vezes, será a própria vida que cuidará de regar as sementes com
experiências dolorosas que o jovem enfrentará por causa de seu endurecimento e
propensão ao erro. Os pais que fizeram tudo o que puderam nada têm a recear de
suas próprias consciências e nem das leis divinas. Muitos são os Espíritos que
reencarnam com bons propósitos e fraquejam ainda na adolescência. A regra geral
é culpar os pais. Pode ser que pudessem ter feito mais e melhor, mas como já
foi dito antes, não existe arrastamento para o mal e o jovem que se deixa levar
por ele é porque ainda se compraz nele. Enfim, as influências externas
contribuem é certo, mas não são determinantes, pois se vê filhos de pais
alcoólatras e de vida desregrada seguirem uma vida digna, ao lado de irmãos que
se deixaram conduzir pelo mau exemplo.
DO LIVRO ADOLESCENTE PEDE PASSAGEM
PAULO R SANTOS
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